26 maio, 2011

Valsa da Mulher Ferida

Ela conhece as pessoas pelo jeito que elas olham porque sabe que os olhos estão sempre dizendo aquilo que a boca não tem coragem de falar.Fala pouco com ele, mas se olham toda à noite.Encaram-se pela manhã também, não evita olhares porque é através deles o único diálogo verdadeiro que eles têm.

A mulher ferida não está machucada por nenhuma queda, por nenhum soco e pontapé ou por qualquer outra porrada.Está sim marcada pela infelicidade, pelo fracasso do seu relacionamento, pelo desamor do seu par e pela frustração de um casamento que deveria ter sido feliz.A foto deles sorrindo no porta-retratos é atualmente a maior mentira de sua vida.
E tudo que era para ser repartido foi sendo dividido.A casa cortada ao meio, quartos separados, rotinas distintas, um não sabe da vida do outro, é cada um por si e o tempo contra os dois.Sente-se ferida porque ele mudou demais, era de um jeito no começo e hoje é apenas um espectro do homem que era quando se conheceram anos atrás.Parece um fantasma andando pela casa.Ela ouve seus passos pelo corredor, mantém sempre sua porta trancada.Mesmo sabendo que ele jamais entraria lá sem ser convidado.Poré m o sente atravessando as paredes para assombrá-la.
Foi enganada por ardis de sedução, pelos assédios carinhosos, pelas flores e pelos jantares.Mas do seu lado antes de abrir as pernas abriu o coração.Antes de dizer sim disse muitas vezes não.Soube mostrar a ele as trilhas e os caminhos para ser conquistada. Foi revelando-se aos poucos e criando nele uma expectativa sublime.Depois tudo aconteceu muito rápido e logo estavam casados.
A mulher ferida sangra pelos olhos, derrama lágrimas de sangue pelo arrependimento. Sente um quase ódio por ser fêmea rejeitada, destituída do seu dom de gerar vida.O que teria acontecido para ele se desinteressar tanto por ela como se fosse um desses brinquedos que ficou velho? Por que foi descartada, esquecida e jogada fora? Fica olhando-se no espelho, não está mais gorda do que antes, continua bela, um pouco mais velha sim, mais ainda muito bonita.Olha para dentro, está ainda mais interessante do que era.Mas ele faz tempo que não liga pra ela.A última vez que fizeram amor foi porque ela se jogou em cima dele. O vinho liberou sua libido, tanto tempo de carne ignorada.Foi o orgasmo mais triste e o mais desejado de toda a sua vida.

A valsa toca e ela dança sozinha pela sala, de olhos fechados baila e imagina um homem gentil conduzindo-a pelo salão, lisonjeada ela sente suas mãos firmes, o calor do seu corpo aquecendo-a do frio do seu lamento. Nunca amou assim tanto, só vê esse homem quando fecha os olhos. É ele que tem a salvado da morte.



E de olhos fechados ela sonhou com o encontro de sua alma com a dele. Foi quando ouviu uma voz firme lhe indagar: "Por que você demorou tanto para vir?". "Foi porque não conseguia me mover até você, mas agora que nos encontramos nada mais vai nos separar...."
E a valsa toca todos os dias para salvá-la e para curar-lhe a alma... O homem gentil e com princípios, que ela tanto esperava.
(HENRIQUE!)

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Texto original - André Luiz Aquino
Final modificado - Naiara Albojian

23 maio, 2011

Nem foi dessa vez, again!


É galera, mais uma vez o mundo que parecia acabar não acabou! #fail

Várias filosofias contraditórias com verdades Bíblicas acabaram com a vida, fé e esperança de inúmeras pessoas. Sem dúvida!

Mas, não é disso que vim falar. Na verdade, quero ressaltar meu desejo de mudança, e quem sabe com este post, as cobranças na minha mente não sejam mais freqüentes e me ajudem a refazer a minha vida?!
Desde o início do ano, tenho tentado mudar algumas coisas em mim, tanto físico quanto psicológico. Mudei, mas as principais não consegui. E já estamos aí.. no meio do ano e eu aqui, the same way.

Estou participando de um Clube de Leitura, lemos o livro “O Apanhador no Campo de Centeio”, experiência incrível, pessoas incríveis, novos amigos e conhecimento acrescentado. Porém, acredito que qualquer aprendizado novo ou velho, deva ser aplicado, e quando não o faço, sinto como se nada do que passei foi válido. Acho que é por isso que tenho uma péssima memória.Não pratico nada do que aprendo!

Holden foi uma inspiração.

Agora, nessa linha de raciocínio, tanto do livro quanto da minha vida e a relação de tudo isso com o fim do mundo, fiquei pensando, mais ainda,  no que faço da minha vida. Eu trabalho demais, e nem tenho tempo pra mim e pras outras pessoas ao meu redor. (nem pro meu cachorro mais eu tenho tempo);
Dou prioridade pra coisas que não merecem minha atenção, mas mesmo assim, não consigo me desprender. Círculo vicioso. E no dia 21/05, sentada no sofá, nos braços do meu amor, desmaiando de sono pelos cafunés que ganhava, eu fiquei pensando no que fiz da minha vida. Epitáfio, música, seria uma boa pedida agora. Mas o mundo capitalista em que vivemos nos priva até por coisas das quais temos direito. Dinheiro dinheiro dinheiro... tudo dinheiro!

Tem dias que estou pensando no que fazer da minha vida. Como melhorar a cada dia. Pra que no fim do mundo mesmo, eu seja arrebatada, e que eu não seja enganada pela vida e pelas pessoas. Minhas respostas sempre me voltam pra Deus. Na maneira como eu me afastei, e na maneira como estou firme nas minhas opiniões, e como sou hipócrita na maioria das vezes.

O problema é por onde começar. Não sei aonde me perdi na estrada da vida. E nem qual caminho devo seguir para encontrar minha regeneração como ser humano, serva de Deus e mulher.

Vou seguindo o caminho... quem sabe eu não encontre o que estou procurando... ou pelo menos, chegue perto. 

17 maio, 2011

Medo da Eternidade

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.